Para entender o que aí está intrínseco, para que se possa destrinchar alguns dos detalhes a respeito dessa banda, é preciso que se tenha em mente uma grande verdade, que é também uma certeza - a de que não é possível responder com o uso apenas da razão à questões como: Ó, céus, o que será que tem na Vitalógica que a torna digna de nota mesmo sendo, à primeira ouvidela, idêntica a tantas outras? Ou: Por que diabos eu passei tanto tempo sem essa banda?
Não, não, não, esqueça isso, esqueça até de se esquecer disso, nem que seja por enquanto. E ouça.
As influências são das mais diversas, como Pixinguinha, Bethânia e Sonic Youth, mas as que se tornam mais audíveis no som dos caras são as de Engenheiros do Hawaii (com as pouquíssimas coisas que isso tem de bom), as do Violeta de Outono e de Legião Urbana (com tudo o que elas têm de melhor, ou seja, tudo).
Mas eles são muito mais do que isso. Faz parte da lógica do Vitalógica trazer guitarradas suprapoderosíssimas, como na faixa "24 Horas": letra simples e bacana, refrão grudento e vocais bem colocados. Pronto, taí a fórmula que eles seguem em quase todas as faixas de seu primeiro e homônimo disco.
Se gostou dessa faixa, prepare-se e armazene sua empolgação para "Meu Tempo", que segue a mesma linha: começa a mil por hora, depois fica mais calminha e mais adiante, no refrão, volta a explodir, ou seja, tudo igualzinho ao que outras bandas fazem por aí. Certo, e daí? E daí, qual a diferença? Aqui, nenhuma. O que vem adiante é o que pega.
E o que pega é a melhor e a melhor faixa é a irrepreensível "Acima dos Telhados", belíssima em seus pouco mais de dois perfeitos minutinhos de duração, na levada descompromissada de "O Mundo Anda tão Complicado", da Legião. Longérrimo de ser algo negativo, essa característica é uma das mais interessantes na banda, essa de descaradamente deixar transparecer suas influências e ainda assim permanecer original. Apesar de não ser realmente "colante", é uma faixa da qual é difícil se desvencilhar.
E a letra? Ora, não tem como ignorar uma frase como "A pureza sólida do mais líquido que existe gasosamente não ocupa espaço". Poesia que poderia soar pretensiosamente filosófica, especialmente para uma banda que não tem muito tempo de estrada, mas (ahém), lembre-se de que essa regrinha chatola não se aplica a eles. E por que? Ora, porque apesar de dialogar sobre um dos milhares de males os mais comuns que assolam os humanos no século XXI (coisa que todo mundo vem fazendo, geralmente com resultados entediantes), o Vitalógica consegue correr do lugar-comum ao incrustar seu som com uma beleza pura e rara (coisa que quase ninguém vem fazendo, com poucos resultados brilhantes). Em suma, “Acima dos Telhados" é uma desgraça de boa!
Uma surpresa é a faixa “Conspiração”, que lembra The Mission e Sisters of Mercy, mas enjoa facilmente. Vale pelo fato de que ajuda a encher lingüiça. “O Cotidiano” segue pelo mesmo caminho. Os vocais de “Cenas na TV” não passam muita convicção, e não sei por que, pois nas outras músicas tudo está tão bem. Mas a faixa em si não chega a ser um ponto fraco, pela letra e pela parte instrumental bem cuidada, apesar de um pouquinho clichezenta. “Do Princípio ao Fim” tem uma levada que remete à "Mudança de Comportamento", do Ira!, ou talvez seja apenas delírio giselístico...
"Sua cor" vale especialmente pela letra, que merece toda a nossa atenção. O tema o desamor surge aqui muito bem delineado, numa letra direta e límpida, com frases de efeito cíclico. O ódio vem impresso, e sem eufemismos que por si só já diriam o oposto. Um “já-vai-tarde” com muito estilo.
“Dentro do Espelho” é a cereja do bolo, uma perolazinha que prova que a simplicidade também pode ser grandiosa! Essa não tem como não ouvir e reouvir sorriiiindo.
Agora sim já é possível responder às questões acima. A originalidade do Vitalógica encontra-se nas letras, muito bem traçadas. E, se o som por vezes parece muito familiar, lembre-se de que há a vantagem de uma banda bem entrosada e afiada, o que dispensa qualquer obrigação com uma pseudo-originalidade que muito bem lhes pudesse ser atribuída.
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