terça-feira, 28 de julho de 2020

RESENHA "OUTROS VOOS", DO HARTRIPE - rockbrasilia abril-09

O Hartripe nunca chegou realmente a "bombar", a não ser no circuito underground, do qual é um dos pilares, por sinal, o mais sólido. E parece que é assim que eles gostam (parece-me que os fãs também). No começo (lá pelos idos de 1998), esses meninos não davam a mínima para essa coisa de "marketing pessoal" (observando uma formiga passando...) e assim continuam, focados apenas nas composições, não tanto em fazer muitos shows.
E é fácil entender por que os alternativos sempre serão alternativos. Trata-se de uma banda cujas músicas nos fazem pensar, e para isso, exigem que se ouça com atenção e se considere as letras. E, nos dias atuais, quem é que quer parar para pensar? Explica-se facilmente porque uma das dez melhores bandas de Brasília e entorno não tem recebido mais atenção da grande mídia, da qual atualmente ninguém mais precisa. A última leva das bandas com boas letras que atingiram o grande público foi a dos anos noventa, com o Pavement, o Belle and Sebastian, o Galaxie 500 (opa, mas eles...) e meia dúzia de outras. Hoje não há mais como algo assim acontecer, porque a maioria das pessoas acredita que a "Internet me deixou burro, muito burro demais". É muito cômodo colocar a culpa da alienação coletiva dos dias de hoje no enorme volume de informações e na facilidade em alcançá-las, mas felizmente o Hartripe não está aí para os preguiçosos mentais.
O EP "Outros Voos" demorou a dar as caras. Foram sete anos desde o lançamento do arrebatador single "Cerrado Setembro", o primeiro lançamento do Hartripe, mas valeu a espera. Depois de todo esse tempo se fingindo de mortos, os hartripianos ressucitaram com um dos melhores discos lançados em 2008. Esse EP deixa a impressão de que o tempo parou. Ou será que o tempo não parou?
Parece que não, porque a banda continua afiada como sempre, um genuíno trabalho de grupo, que dá gosto de ver e de ouvir. E parece que o tempo não parou, porque eles adquiriram ainda mais experiência e estão muito melhores do que antes.
As letras, que sempre foram o forte do Hartripe, continuam sublimes em sua maioria. A sonoridade é a mesma, continua com os dois pés no shoegaze e a cabeça no vento, em pensamentos surreais, que mostram que eles não dormem em serviço.
Começa com "Assim", que conquista logo na sua longa introdução longa, criando um clima calmo dedilhado ao piano e que é quebrado pela barulheira das guitarras que se seguem. Tal como "Go on" e "Iceberg", esta faixa começa melancólica e termina num otimismo encantador. E encantadora ela é nas repetições do refrão de uma única palavra, nas guitarradas giratórias de "So Young" (ou será que deixei de novo minha imaginação voar???), que nos alegram tanto os ouvidinhos, na pontuada bateria e na letra fofa-egotista.
Em "Escritores do Nada" (alfinetada das boas) ouvimos menos sintetizadores e mais guitarras puras. E novamente aqui vou eu a enfatizar a ótima letra, que já começa com "Nossos escritos são difíceis de entender Procuramos palavras certas num livro sem autor", uma "homenagem" aos plagiadores das letras, aos interditores da criatividade. A única letra neste disco que foi escrita a seis mãos (Marcos Almeida, Régis Oliveira e Gerson Barbosa) e que mostra que parcerias assim podem dar certo, embora majoritariamente deem muito errado. Enfim, simpatiza-se com a música logo no início, quando ouvimos o baixão joydivisioniano de Léo (mas isso é só aqui) e em seguida, ao notar os efeitos sincronizados com os riffs que não são os protagonistas nessa música, mas que estão sempre na base. O tempo e a perda (afinal, viver é sofrer, e sofrer é perder) são os grandes temas de "Outros Voos", que nessa faixa se concatenam, inseparáveis como sempre foram, na eternidade. Opa, isso nos mostra que nem sempre a culpa é dos escritores do nada (por não entenderem como se deve os pormenores da alma), e sim da própria humanidade, que se tornou desalmada. É isso, vozes secas, corpos nulos; então para que insistir? Os escritores do nada não sabem responder a isso, mas ainda assim insistem. De qualquer modo, mesmo morto, Schopenhauer certamente está sorrindo, orgulhoso. Eu também.
"Entropia": Mesmo com toda a sua qualidade sonora (as guitarras são huuummm, deliciosas), esta faixa é uma que não me provoca nenhuma reação. E sei bem o porquê. A letra indolor em sua insignificância e exatamente por isso parece deslocada do restante. Fosse instrumental seria perfeita. Sua profundidade (a da letra) termina após o título, que por sinal, exemplifica bem o que essa música é. Círculo de clichês. Clichês circulantes. Que coisa! Um escorregão à la Pitty (ai, agora me deixei triste), mas que não chega a incomodar, pois para o bem e para o mal, as minorias geralmente não incomodam muito.
A melhor faixa deste Ep é a ultraotimista "Iceberg". Um dos muitos pontos positivos do Hartripe é reencarnar o shoegaze (space-rock, mais especificamente), com vocais enterrados em massas sonoras de guitarras e baterias e sintetizadores. É aqui que a gente ouve ecos de Ride, de Why e de Boo Radleys, ou talvez seja "apenas" o Hartripe em seus melhores momentos. Taí uma música da qual é quase impossível se desvencilhar, quanto mais se ouve, mais a gente se torna dependente dela.
A misteriosa "Grebeci" mostra o lado inverso da belíssima "Iceberg". Está marcada como instrumental, mas na verdade ela tem vocais, mas sua letra foi colocada de trás para a frente. Interessante que outros que já fizeram isso (colocar músicas ao contrário num disco) não tiveram o mesmo bom senso de limitar o tempo. Até porque experimentação sonora é sempre bem vinda, mas quando não termina nunca, corre o risco de tornar-se tediosa. Deve ser por isso que essa é a faixa mais curta do disco, boa sacada senão poderia ter ficado entediante. Nota dez.
"Go On" é outra belíssima composição de Marcos Almeida, o vocalista, guitarrista e fundador da banda. Sua letra provavelmente heideggeriana traz o tema do ser humano como algo desconectado deste mundo. Um ser absorto em sua própria futilidade, que foi fabricado por acaso e só permanece "vivo" no tempo, enquanto o mundo lhe permitir. Assim, a maioria dos mortais se despersonaliza, adotando uma personalidade coletiva, que nada mais é que a "falta de si", e naufraga num mar de nulidade doq aul, talvez assim, passe a fazer parte... Ao final da canção ("hora de agir, então sigamos em frente", passando pelo despertar da angústia), a mensagem que parece nos alertar que talvez a humanidade esteja conectada com um outro mundo, em que não haja tantas imperfeições e injustiças. Uma canção que faz pensar, eba!
"Vírus": Mais guitarras potentes, mais letras bacanas, mas Hartripe. Aqui a energia sexual vem com tudo e aceleradamente manda ver. Sutil e concomitante explícita, esta letra arrasa em simplicidade. O instrumental acompanha e os vírus (do amor? do desamor?) em sua jornada corpo adentro, indo de encontro a um organismo já adoentado, ou a uma alma já ferida. Piegas é o que eu fiz parecer, mas é o que essa música está longe de ser. Aqui a coisa é pra valer. Como na história do universo, mesmo antes do fim, já estamos sem fôlego.
"Hipnose": E falando em espaço e em amor, veja só eles aí de novo. Não foi à toa que essas duas ficaram juntas no disco. Mas aqui a coisa é um pouco diferente. Ou igual, que seja, mas é um desses raros casos em que o igual é mais diferente que o tido como diferente. Mas é que, ora bolas, o universo continua o mesmo, mesmo mudando a todo momento; e nós continuamos a semiviver em nossa insignificância, sem influenciar em quase nada, apenas para o mal. Talvez essa categoria de hipnose também possa ser classificada como um vírus.
"O Último Anarquista": Oba, oba, mais pauladas! Aqui já não é shoegaze, não. Uma letra que parece uma redação, mas que incrivelmente funciona aqui. O apocalipse tem seu lugar no mundo real do século XXI e também em trechos como "Ou conquiste o planeta ou dele desapareça" e "eu sou a luz do seu dia que devéras já morreu". Essa são fortes, a verdade geralmente é. Potente, devia terminar assim.
"Estado Alucinose": Essa apenas leva o disco a seu término, beira o anticlímax. Torna-se inofensiva ao repetir da mesma maneira a ótima e até então infalível fórmula guitarras uhhuuu! + sintetizadores amalucados, mas não tanto por isso. Barulhenta, mas desnecessária em meio a tantas faixas excelentes do mesmo estilo, como as supracitadas. Mas o título dessa música serve como um bom subtítulo para o disco, que nos leva ao tal estado alucinoise do qual tanto gostamos.
Saldo positivo, ou como diria eu mesma, positivíssimo. Disco primoroso. Sendo assim, mesmo que esperemos mais sete anos para mais deleites sonoros do Hartripe, certamente valerá a tortura da espera.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Resumo do Livro: "Os Segredos da Mente Milionária", de T. Harv Eker. Editora Sextante.

"Tudo o que alguém classificar como obstáculo, reclassifique como oportunidade." Harv Eker 1,2 milhão de exemplares vendidos. E ta...