quinta-feira, 30 de julho de 2020

ACORDE-ME QUANDO ESSE CLIPE ACABAR

Refiro-me ao clipe da fofa "Wake Me Up When September Ends", que estreou na MTV Brasil a 17 de agosto de 2005 e foi dirigido pelo Samuel Bayer, (o mesmo que dirigiu "The Hearts Filthy Lesson" do Bowie, "Stupid Girl" do Garbage e um monte aí) por quem mantenho certa antipatia. O clipe em si é uma lixeba.
Bom, a questão é: o quarto single do mediano "American Idiot", mesmo não sendo lá essas coisas, ganhou um clipe muito aquém de qualquer expectativa giselística. Ay, caramba, como assim?
Os únicos pontos fortes nesse clipe são» 1- a fotografia (lindéééééérrima, por sinal) e 2- as cenas em que a banda aparece tocando, só. Em contrapartida, o número de coisas erradas neste clipe é desesperador, veja só:
1 - Direção: Sim, o diretor errado, o único responsável por todas outros motivos porque este clipe é tão pedante. Samuel Bayer colocou tudo a perder. Custava ter mantido o áudio da música durante aquela passagem? Custava?
2 - Nada de errado em contar a história besta de um casalzinho cujo grau de bestialidade excede até mesmo as atuações dos atores neste clipe, não, até aí, tudo aceitável. A parte gosmenta está justamente na forma como a história é contada. Não importa de que diabos você fale, contanto que fale de um jeito agradável e/ou não muito pedante. Infelizmente não é o que acontece com essa caquinha videoclípica. Primeiro, porque a protagonista vadia repete a expressão "Oh, my God" nada menos que 9 vezes (talvez até mais), da forma mais irritante que pode ser falada, ou neste caso, berrada de forma histérica. E tudo por que? Porque ela é imatura demais para aceitar que seu namorado tenha mais amor pela pátria do que por ela, o que é perfeitamente aceitável. Isso se considerando o fato de que tem que ser um verdadeiro zé-mané para ter qualquer sentimento bom por uma figura ridícula daquela.
3 - Já que mencionei o patético diálogo, vou enfiar logo o pé na jaca. Entre os repetitivos "Oh, God, oh God..." da vagabunda, o imbecilóide tenta, em vão, argumentar soltando um "Você não entende, estou fazendo isso por nós, por nós!". Que diabos foi aquilo? Queria ferir meus ouvidos e pôr em cheque minha sanidade? Se era essa a intenção, devia ter deixado o GD em paz e dirigido um clipe da J. Lo!
4 - Os desesperadores 4m45s da música em nada ajudam a aturar esse clipe, que dura um pouco mais do que isso. Pô, com tal qualidade (neste caso, a falta dela) não deveria jamais ter saído do storyboard daquele manezão do Bayer. Isso sem falar que a duração incômoda é mais do que um tédio, é desperdiçante de tempo.
5 - Foi apostar na música, ó só no que deu! "Wake Me Up...", a música, é apenas bonitinha, não lindérrima como "Pulling Teeth" ou "Time Of Your Life"; é apenas triste, não dilacerante, como "When I Come Around" ou "Hold On". Conclusão: essa música não é o bastante para "sustentar" o clipe tal qual Jack Nicholson faz nos filmes em que atua, especialmente nos de qualidade duvidosa. É preciso imagens não à altura, mas ainda melhores e mais envolventes. Esse clipe, definitivamente, não tem nada disso.
6 - A última coisa ruim neste clipe é que ele não se parece com nenhum outro clipe do GD e, neste caso deveria. Todos (Eu disse TODOS!) os outros clipes greenísticos são, no mínimo, sensacionais. Uns com excelentes idéias ("Redundant", "Minority"), excelentes diretores ("Brain Stew/Jaded", "Longview"), clipes-catástrofe ("Warning", "Walking Contradiction") ou mesmo uma direção artística embasbacante ("Waiting", "Macy's Day Parade"), todos fantásticos a seu modo. Pois ééé, enquanto "Wake me up..." não passa de um curtinha de merda, os outros clipes do Green Day são isso aí, ó só:
» Do divertidérrimo "Dookie" (1994) tiraram ao todo cinco clipes (mesmo numerozinho do "American Idiot", veja só), pois há duas versões da maravilhosa "When I Come Around", uma clip-clip e outra ao vivo, que por sinal é um dos melhores clipes ao vivo que eu já vi, com todo mundo banhado em lama. Ambas as versões tiveram a direção da ótima Linda Mendoza. É um lindo clipe com cenas corriqueiras que destacam a solidão da vida urbana de uma forma simples, direta e ao som de uma música maravilhosa. Nota 10.
» Já o clipão de "Longview" é acuado, numa depressão domestica quase clichezenta, mas curiosamente blasé. Ora, como pode? Como pode, não sei, mas isso se deve ao genialíssimo Mark Kohr, que dirigiu tanto clipe bacanudo que eu até perdi a conta ("Hand in My Pocket" da Alanis Morissete e "Everything To Everyone", do Everclear, só para citar dois dos melhores). Billie Joe sentado no sofá, meio paranóico, meio deprimido, não seria nada demais não fosse a direção, perfeita e sem firulas do Kohr. E a banda tocando num quarto pequeno como se estivesse num estádio adiciona mais um ponto positivo na contagem, se bem que nem precisava.
» "She", ao vivo, também bastante direto, como todos desse álbum. Musicaça levanta-defunto, dispensa o que dispensa. Com uma melodia assim não precisaria nem de letra, mas não é que ela tem uma letrinha de tirar o fôlego? Só por aquele início ("She screams in silence a sullen riot penetrating through her mind") não precisaria de mais nada, nem do meu trecho predileto (que não conto qual é) ou do refrão arrebatador (Are you locked up in a world that's been planned out for you? Are you feeling like a social tool without a use"). Ih, por pouco não transcrevo a letra toda.
» E o que dizer da quebra-toco "Basket Case"? E o que não dizer? Quem não conhece o clip-hit-single da geração 90'? Quem não bateu muuuuuuuito a cabeça no espelho ouvindo essa música? Quem consegue resistir quando a música mais antienjôo do universo começa a tocar em qualquer lugar? Como dizer que essa música foi, talvez, a maior responsável por trazer o GD às massas, o que nem sempre é uma coisa boa, mas neste caso, sim? Hein?
» Da maluquice que os arrancou do underground nasceu "Insomniac", em 1995. Que disco, que clipes, que banda resistente! Apesar de ser já o quarto álbum da carreira do GD, este "Insomniac" veio ao mundo como uma confirmação de que não se tratava de apenas mais uma bandinha punk-pirulitana, que desde aquela época vem sendo produzidas em série. Não, o GD nunca foi assim, para mim, já surgiu mega. Principalmente ao ouvir e ver "Stuck With Me", minha décima música predileta do GD. Macacos sempre estão presentes quando se fala em GD. Tem um na incrível capa do "Dookie" e tem nesse clipe de "Stuck With Me".
» Para o clipaço de "Walking Contradiction" convidaram ninguém menos que o premiadíssimo Roman Coppola, que não decepcionou. Fez o 19° melhor clipe de todos os tempos, isso sem falar que também é um dos mais engraçados. "Geek Stink Breath" é o que a letra diz e ainda mostra um doido extraindo um dente! Sangue pra todo lado e coragem, muita coragem, amigos. É também um dos meus clipões favoritos.
» Já "Brain Stew/Jaded", o clipe duplo dirigido pelo Kevin Kerslake, é bem incomum. Naquela época não se ousava fazer coisas tão coloridas quanto as que o Kerslake fazia e continua fazendo (vide "Cherub Rock", dos Pumpkins ou "Bright Yellow Gun" do Throwing Muses para entender do que estou falando). O que não quer dizer que ele não seja tão bom quanto em P&B. Para comprovar seu talento em preto e branco basta ver um outro clipe genial da extensa lista do Kerslake, "Interstate Love Song", do finado Stone Temple Pilots. Então, "Brain Stew" é todo em preto e branco e, quando passa para "Jaded" ele se torna coloridão e amalucado, como a música. Câmeras balançando, a banda mandando ver no trio elétrico (baixo, guitarra e bateria) e uma equipe de produção nota dez que provavelmente o acompanha em suas jornadas videoclípicas.
» Bom, do genial "Nimrod" de 1997 temos "Last Ride In", de Lance Biangs (dirigiu também "Hewlett’s Daughter" clipe gracinha dos fofíssimos do Grandaddy). Além desse, não consta em minha modesta videografia mais nada dirigido pelo Biangs, portanto, passa-lo-ei. Mas não sem antes dizer que é muuuuuuuito cool aquela cena em que o cara cai de skate no asfalto. Não é um tombaço do tipo que se costuma ver os skatistas levando, é simples e antimachucado, mas ainda assim inexplicavelmente radical como se tivesse caído em cima de um corrimão. Bela cena.
» Temos agora "Redundant", a pérola das pérolas videoclípicas plano-sequenciadas. Definitivamente não há nada melhor em matéria de plano único, nem mesmo no cinema. E nem tente discordar, pois discordando de mim estará colocando em perigo sua fé no sensacional Mark Kohr (ele de novo). Pois é, quem conhece esse clipão sabe bem do que se trata, tem o quadro sendo tirado e recolocado na parede a toda hora, tem o menino saindo pela janela e tem o jornal rolando pelo chão com uma precisão assustadoramente perfeita, assim como todo o clipe. A música, então, é um capítulo à parte. Tal qual "Good Riddance (Time Of Your Life)", outro do Mark Kohr no qual ele se superou novamente. O slow-motion daquelas cenas que bem poderiam ser frívolas as transformou em belíssimos retratos para a posteridade.
» Outro que tem a direção do Mark é "Hitchin’A Ride", no qual ele colocou a musa-símbolo da cultura pop sexy do século passado dançando ao som do GD num clipe muito legal de ser reassistido diversas vezes e que me deu um trabalhão para conseguir gravá-lo.
» Em "Nice Guys Finish Last" mudaram de diretor, mas mantiveram a qualidade em alta. O que não é difícil quando se tem alguém do calibre de Evan Bernard ("New America", do Bad Religion; "Butter of 69", do Butter 08), que também dirigiria o upíssimo clipe de "Minority". "Nice Guys..." é mais que demais, e por isso mesmo mereceria um elogio menos teen-torto do que esse. É que esse clipe é tão divertido e futebolístico que me rouba as palavras.
» Em 2000 foi lançado o aguardadíssimo "Warning", o álbum "maduro" do GD. Lembro-me bem que, ao ler numa revista sobre essa maturidade toda do GD, fiquei apreensiva. Pô, minha bandinha teen (no bom sentido) querida estava crescendo e se tornando uma adulta hipócrita? Nãããããooooooooo.... Passado o chilique, estreou o clipaço do já citado "Minority", que foi o bastante para me provar que o GD continuava fantástico.
» Logo depois (3 de outubro) saiu o disco e estreou o clipe de "Warning". Se o primeiro já era bacanaço, o segundo era uma glória para os fãs e não-fãs. A temática do clipe-catástrofe está presente novamente, dessa vez não na pele do Billie Joe (que, entre outras sem-noçõezices, provocou uma queda das boas no ciclista e esmagou o dono da banca de jornal, geniclipaço!), mas na de um branquelo que atrai para os que o rodeiam muitos incidentes dos quais ele sai sempre ileso. Excelente clipe.
» Já em "Waiting", do Marc Webb não tem historinha nem nada, só uma deliciosa baladinha guitarrística e uma fotografia linda de doer. Aliás, já na época foi esse o aspecto que me chamou mais atenção neste clipe, pois a música eu já conhecia. Fiquei embasbacada com a beleza das imagens produzidas devido ao cuidadoso modo como a luz batia nas personagens. Que clipão!
» Com o lançamento da coletânea "International Superhits!" em 2001, (que contém 19 superhitões acrescidos de duas faixas inéditas) surgiu "Macy’s Day Parade". Sim, apesar da música ser a última faixa do álbum "Warning", este clipe só foi lançado pós-coletânea. Tem direção do Mark Kohr e plano-sequenciado em P&B. Uau! No meu tempo não se aplicava tantos atributos a um único clipe. Mas Mark o fez como costumava fazer, com a maestria de um cineasta que não tem mais nada a provar. Outro clipe para a galeria dos magistrais.
» O outro clipe deste álbum foi o de uma das faixas inéditas, a boa "Poprocks And Coke" (a outra é "Maria"). Esse já é mais singelo e não tem tantos elementos cinematográficos a se admirar, como os tem seu antecessor, mas tem a destreza desconexa, talvez extraída da própria música. De qualquer forma, é um clipe muito gostoso de se ver e com carinha de despedida, o que é muito apropriado. Despedida por que? Ora, porque, após a coletânea o GD passou a um outro patamar de sua carreira (coisa que já estava para acontecer antes do lançamento do "Warning", mas que havia sido adiado até então), não um mais elevado (para onde subir se já está no topo?), mas num mais "meia-idade", por falta de termo melhor. Meia idade porque já não é mais uma banda tão jovem, com um ou dois discos lançados. Até aqui já foram 6 álbuns e a tal coletânea, o que já mostra uma bagagem e tanto. Manter a qualidade após mais de quinze anos de carreira não é lá muito fácil e o mesmo pode ser dito sobre manter a mesma formação. Os Pumpkins que o digam!
» Bom, passemos para o completamente ignorado "Shenanigans". Injustamente ignorado, pois se trata de um ótimo álbum, quase tão bom quanto "Insomniac", por exemplo. Entre suas 14 faixas tem pelo menos umas 10 essenciais e boas candidatas a hit, embora nenhuma tenha sido eleita. Lançado em 2002, não teve nenhum clipe, o que mostrou que a banda estava numas de radioheadalizar sua carreira. Não dei muita atenção, até apoiei, pois a banda bem que merecia um descanso da mídia, que andava meio assim desde "Warning". Só achei chato não ter clipe, costume esse que foi posto de lado com o lançamento de "American Idiot", dois anos depois.
» Nenhum desses clipes novos me chamou atenção, talvez isso se deva ao fato de que quem os dirigiu foi o boicotado (por mim) Samuel Bayer. Dirigiu não só o clipe da faixa título, mas também os clipes de "Boulevard of Broken Dreams", "Holiday" e o horrendo "Wake Me Up..." e nenhum deles conseguiu manter meus olhos grudados na tela. Por que será, hein? O único clipe decente dirigido pelo Bayer foi o quinto do "American Idiot", da faixa "Jesus of Suburbia", por sinal, megaclipão! Mostra que veio ao mundo para salvar Bayer da boicotagem giselística e também para salvar a própria música. "Jesus..." nada tem de especial além do clipe. As imagens só funcionam (e como!) com a música, e vice-versa. Odiava de paixão essa música até a estreia do clipe, o que explica essa minha teoria e mostra que Bayer fez ao menos uma coisa apresentável nessa sua vidinha.

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