Grande contista, exímio novelista e esplêndido romancista, Maugham não é um dos meus favoritos à toa. Sua estrutura literária é tão vasta quanto primorosa, o que se evidencia ainda mais nesta sua obra-prima. Este foi o primeiro romance com o qual tomei contato com sua obra e também o que mais me impressionou. Por seu caráter semi-autobiográfico e de uma lógica fundamental para se entender sua época, "Servidão Humana" consta sempre no topo das minhas listas de favoritos.
E essa reverência não é à toa, pois neste emocionante relato, Maugham nos leva a acompanhá-lo em sua longa e dificultosa saga por uma existência mais amena de forma tão lírica e sem reservas que, desde o início, já nos sentimos como se fôssemos os melhores amigos do protagonista.
Uma narrativa de mais de 400 páginas poderia muito facilmente se mostrar extremamente cansativa e desinteressante não fosse o estilo leve da pena de Maugham, que torna cada trecho assaz prazeroso e interessante.
Totalmente sem segredos, vamos crescendo junto ao doce Philip, órfão de pai e mãe que, cedo passa a ser criado por seus tios, num ambiente com vários tipos de privações materiais e afetivas. Isso poderia tê-lo transformado num ser amargo e desesperançado, mas ocorre o oposto. Após sofrer horrores no internato onde passou sua adolescência (por conta de maus-tratos dos colegas, que zombavam de sua deformação no pé), o jovem Philip precisa ganhar a vida, que quase nunca parece lhe sorrir. Ao atingir a maioridade, consegue o direito de administrar sua modesta herança, livre do domínio do tio. Permanece sendo um garoto meigo e caridoso, alvo fácil para a cruel Mildred, que não medirá esforços para empreender-lhe uma servidão emocional que desafiará sua dignidade e o levará a imaginar que todas as desventuras pelas quais havia passado foram fáceis perto desse novo desafio.
Mildred é extremamente interesseira e manipuladora que o levará a todas as espécies de decadência, tanto materiais quanto espirituais. Se o momento da morte da mãe de Philip no início do livro já é por demais comovente, nem se compara ao que nós somos levados a sentir as passagens nas quais ele se encontra com Mildred. Por já termos compartilhado das várias situações mortificantes que Philip passara até então, temos a impressão de não há mais nada de tão degradante de que ele possa ser acometido. Ledo engano. Maugham nos prova o contrário durante quase toda a trama, em que vemos Philip submeter-se cada vez mais a um amor não apenas não-correspondido, como impossível, ofensivo e extenuante. Mesmo sofrendo mais do que se é "admissível" sofrer, ele parece suportar cada injúria com resignação, que leva o leitor a se impressionar com sua grandeza de espírito e inocência que o faz pensar que Mildred o considera minimamente gostável, mesmo que ela jamais tenha deixado transparecer isso. Quanto mais ela o maltrata, parece-nos que mais ardentemente ele a deseja.
Estranho é que Philip devote tanto amor a uma mulher que nada tinha de intelectualidade, espirituosidade ou beleza, e nada tenha reservado à sua cítrica colega de estudos Fanny Price (a não ser a famosa cordialidade philipesca), que se sentia atraída por ele. Isso comprova que o amor não é apenas cego, como também é surdo e dotado de uma imponente estupidez. Mesmo sendo considerada feia, repulsiva e nada talentosa, Fanny tinha muito mais em comum com Philip do que Mildred, que convenhamos, também estava muito longe de ser uma Minerva ou mesmo uma Vênus.
Assim como Philip, Fanny sempre teve uma vida árdua, com muitas dificuldades (principalmente financeiras) e raríssimas alegrias. Fanny amava a arte que a odiava; a mesma arte que revelou sua mediocridade artística e quase lhe minou a dignidade. Sua personalidade asquerosa e violenta não passava de um escudo que ela utiliza para se proteger do austero mundo em que foi obrigada a viver. Além de ser completamente sozinha no mundo (Philip ainda tem os tios e alguns amigos, mas Fanny não tem nada disso), ela se encontra em desvantagem também em relação a Philip por conta de sua ausência de talento para a pintura, sua maior aspiração. Isso representa um obstáculo instransponível em sua vida já tão pedregosa. E com todas as chances contra ela (tanto suas limitações, quanto as opiniões dos professores), é espantosa a garra com que continua a se dedicar com afinco ao estudo das artes, o que mostra uma teimosia descomunal e um amor transcendental à pintura, o que é esplendidamente enternecedor.
Na figura de Fanny, mais até do que na de Mildred, temos um magnífico exemplo de uma mulher marcante, especialidade de Maugham, evidenciada em toda a sua obra. Apesar das condições precárias em que vivia, ela continuava a tentar e o mais impressionante: manteve uma peculiar dignidade até mesmo ao decidir se suicidar, por enforcamento, para evitar a iminente morte por inanição. Entre duas alternativas pouco atraentes, que revelaram sua situação desesperadora, ela teve forças para escolher a que menos aviltamento lhe conferiria. Não que se enforcar fosse a solução, mas no seu caso, era a escolha mais sensata, mesmo não sendo a melhor, pois o mundo não havia reservado uma escolha melhor para ela.
Enfim, esses são pequenos exemplos da arrebatadora experiência que é ler "Servidão Humana", pulcríssimo retrato da alma humana, um romance abarrotado dos personagens mais bem definidos da literatura inglesa e que, para mim, é uma das dez maiores e mais primorosas estórias já escritas.
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