Tentei fazer uma lista com apenas dez, bem sintetizada, mas preferi ser justa. E uma coisa que não pude deixar de perceber foi que este ano tivemos muitas revisitações videoclípicas, com várias bandas "copiando" a si mesmas, como o lixonauta verá a seguir. Esse fator, no entanto, está longe de ser um problema, eu diria até que trouxe belos resultados essa promiscuidade (sim, teve troca-troca com clipes de outras bandas também) de imagens e até de técnicas, como por exemplo, a alta predominância de estorinhas e as várias seqüências em slow-motion que permearam quase metade desses clipes.
1° OK Go - Here it goes again - Direção: OK Go and Trish Sie: A câmera pode até ser estática, mas os rapazes não são, não. Não consigo mesmo parar de ver esse clipe. Coreografia irrepreensível, esssssssteiras, magnífico plano-sequência (minha nonagésima paixão... calma, não vou citar todas as outras), enfim, a melhor surpresa deste ano nojoso. Indesgrudável!
2° Bois de Gerião - Nunca Mais Monotonia - Diretor: Tomás Nascimento: Aí é covardia, o só: P&B exemplar + animação esperta + multiplot meio clichê, porém adorável como poucos + banda ilustrando (não podia faltar) + uma das minhas cinqüenta canções favoritas em todos os tempos = raro oásis videoclípico, quase tão raro quanto um peixe voando. Até agora não acredito. Aderência ainda mais acentuada que...!
3° Keane - Is it Any Wonder? - Kevin Godley: Sensacional, eletrizante, fabuloso! Preciso renovar minha lista de adjetivos superlativados, porque esse clipe merece. E não pense que eu deixei de implicar com o Keane por causa disso, não, continuo a detestar aqueles vocais sem personalidade e aquele tecladinho enjoado à Coldplay. Apenas dei uma trégua a eles em matéria videoclípica, pois este "Is it Any Wonder" somado ao de "Crystal Ball", de excelente plot, me obrigou a isso. Enfim, nunca tinha visto um travelling tão ousado, rápido e eficiente, a não ser no incendiado (dolly ensandecida) "My Hero", do Foo Fighters, com o qual mantém semelhanças.
4° Belle & Sebastian - The Blues Are Still Blue - Direção: Jonnie Ross: Eita! Esse aí [3° no meu ranking geral sebastiano] só "perde" para os deliciosíssimos clipes de 1°- Jonathan David (imbatível, ainda falarei mais dele) e de 2°- I'm a Cuckoo. Já mencionei a fotografia, de acordo com a ocasião e infalível em criar "climas de cidade pequena". E sim, isso é um elogio. Além da música, a idéia é genial, uma verdadeira obra de arte e ai do desgraçado que disser que estou exagerando!
5° Strokes - You Only Live Once - Samuel Bayer: Creio já ter dito tudo sobre este clipe, ele me arrebatou como poucos ("Stand Inside Your Love", "That Great Love Sound", "Feel the Pain" ... É, a lista é extensa, além dos supracitados), e me impôs um regime overdosístico de Bayer pela goela abaixo. Apesar desse contratempo (que eu tentei, em vão, explicar a mim mesma num dos meus textos enlixaiados), admito que esse clipe quase entrou no primeiro lugar desta lista, só não fiz isso porque meu bracinho estaria agora mais torcido do que já está.
6° Killers - When You Were Young - Anthony Mandler: Clipaço, clipaço! Sei que digo isso de quase todos, mas o Killers sempre caprichou na sua carreira cinematográfica (cuma?). E o melhor é que nosso Brandon Flowers nem precisou atuar nesse ai, como o fez (bem, por sinal) no também lindérrimo "Mr. Brightside". O resultado é exemplar, Mandler manda bem mesmo, nas luzes, na direção dos atores, em tudo! Ele conseguiu a proeza de não transformar em melodrama uma estorinha que tinha todos os elementos para isso. Temos aqui uma peça raríssima, pois T!U!D!O! neste clipezinho está certíssimo: brilhante a atuação dos protagonistas, que se saíram bem até demais para um clipe (sim, é um elogio); e, um mérito da banda, a música, evidentemente!!! A melhor música que eles já fizeram, melhor que todas do primeiro disco juntas.
7° Richard Ashcroft - Break the Night with Colour - Dir.: Borkur Sigthrsson: Com a ajuda de uma belíssima canção pungente, o clipe consegue trazer um clima de profunda paz ao soturnismo que ronda os presídios. Ao narrar de forma simples e ainda assim gloriosa (por vezes, permeada por um ou outro clichezinho que não necessariamente compromete o resultado final, como o close no relógio de parede que marca a sorridente hora de 13h50... um adorável lugar-comum!), a acachapante espera do nosso condenado favorito (aqui pra você, Coyne!), Sig faz transbordar uma angústia ashcroftiana contagiante, e o mais impressionante é que ele o faz de uma forma tão respeitosa e lírica que o espectador videocliposo não tem alternativa a não ser se render e agradecer.
8° She Wants Revenge - Tear You Apart - Dir.: Joaquin Phoenix: Uma banda com os vocais fantasmagóricos herdados do Ian Curtis e um som que é Joy Division até a medula só podia aparecer com um clipe que, apesar de ser noturno e constituído uns 10% de cenas externas (sim, você pode discordar, mas para mim, isso é muito... e muito bom), consegue ser tão claustrofóbico quanto o da fantástica "Love Will Tear Us Apart", que se passa todo num salão fechado. Difere na fotografia, impecável aqui e muito capenga no clipe joydivisioniano. Perdoados estão, pois naquela época não se fazia clipes bons mesmo. Ah, "Tear You Apart" difere, bastante, na temática, para se aproximar de "Just Like Anyone", do Soul Asylum, que também conta a estória de uma adolescente muito especial, um verdadeiro anjinho... A garota misteriosa deste "Tear You Apart", uma versão da esfinge sem segredo (com segredo, que permanece ensegredado) do século XXI ganhou o título de segunda melhor protagonista em videoclipe (calma, logo a lista completa chega), mas não ganha asas no final, como ocorre no clipezinho igualitário do Asylum; a música, nem preciso comentar, com um bate-estaca grudento e um baixão idem (não sei como... mas também não sei de nada), primorosa, tal qual sua irmã-gêmea "Out of Control"; os reds, os vingadores, os salvadores, todos os "os" estão presentes; até mesmo os abomináveis clichês do ensino secundário americano (baile da primavera, garotas fofoqueiras, caras mentirosos) surgem aí com uma eficácia assustadora e são muitíssimo bem utilizados.
9° Sigur Rós - Saeglopur - Dir.: Sigur Rós: Lindaço! Remete ao maravilhosérrimo "Vidrar Vel Til Loftãrãsã ", que também tem direção da própria banda e que também abre mais uma brecha para esses islandeses declararem todo o seu amor ao slow-motion. Mas é claro que um clipe do Sigur Rós representa sempre muito mais do que apenas mais unzinho. A melhor banda do planeta (para mim, é a quinta melhor... logo vem a lista completa, mais uma) plagiou a si própria apenas no estilo (relaxante como uma sessão de watsu), pois o enredo foi mais longe do que eu poderia imaginar. Mergulhos bem filmados nas profundezas oceânicas sempre caem nas graças dos fotógrafos de plantão, e o Sigur Rós aproveitou isso de forma esperta e ultra-inspirada. O resultado é grandioso, como sempre, ornando com seu mais recente rebento, o bem-nascido "Takk...".
10° Magic Numbers - I See You, You See Me - Dir.: David Mould: Desde quando o Mould faz clipe ruim? Desde nunca oras, e não começaria justo com os queridíssimos MN. Além de nos trazer de volta seu preto e branco impecável (para deleite giselístico geral, aquele mesmo do arrebatador "High and Dry"), ainda se lembrou de nos brindar também com o clima saudosista de "Hey Jealousy" (meu clipe predileto dos Gin Blossoms. E, sim, eles têm uma tonelada de clipes legais) e acrescentou um "estilosismo" meio Placebo difícil de descrever. Clipe fofo para ilustrar canção idem; personagem carismaticíssima; plot original... Eu realmente não esperava porcaria nenhuma desse ano horrorentoso, mas esse clipe, os Magic Numbers e o Mould sempre me fazem olhar com menos pessimismo essa vida escabrosa.
11° Ecos Falsos - Reveillon - Direção: Davi Rodriguez e Daniel Akashi: Depois do ótimo Ep de “A última palavra em fashion”, de 2005, os figuraças post-boyband (foram eles que disseram) apareceram com esse clipe aí, que não só consegue exemplificar o sentimento claustrofóbico que transmite à canção, uma magnífica descrição de um pobre coração desenergizado. Ah, e ainda tem estorinha! Agradou a Giselizinha e adentrou a listinha!
12° Plane of Mine - Non Enhanced Head CT - Dir.: Renato Gaiarsa e Rodrigo Luna: Primeiro pensei: "Pronto, banda cover do Hateen", mas afugentei esse pensamento quando detectei, além da música cuja profunda delicadeza que remete a qualquer coisa do ótimo Sufjan Stevens (especialmente a top "Abraham"), a maravilhosa direção de arte desta beleza aí. Pensei que eu tivesse morrido e adentrado o maravilhoso céu dos videoclipes. Para acompanhar uma canção de pureza tão melancólica, bastaria ter a banda tocando ao fundo e uma historinha de algum casalzinho bobo protagonizando. Mas isso seria muito fácil e sem sal nem açúcar, portanto, nada melhor do que fazer uns exames e ver no que dá. O espectador é levado a acompanhar o drama da paciente que espera impaciente o resultado do troço através de closes nada invasivos e planos muito bem formulados, sem cortes excessivos e com uma luz digna do primeiro lugar no Prêmio Gislesco de Excelência Clipística 2006. Tudo isso para dizer que esses caras sabem o que é preciso para se fazer um ótimo clipe-mensagem, e o fizeram. Muito obrigado.
13° Banzé - Doce Ilusão: Claquete! Seria o melhor plano-sequência desse ano não fosse o clipaço do OK Go lá em cima, o que não lhe tira o mérito, pois cenas únicas nunca são fáceis e o resultado de "Doce Ilusão" deve ter ficado exatamente o que tinham imaginado: travelling descompromissado, produção declaradamente desleixada (tanto que o pessoal do backstage também dá o ar de sua graça, seguindo o roteiro à risca), macaquices mil, uma grua onipresente, enfim, elementos que não "apenas" serviram à boa arte do videoclipe como para trazer um pouco do espírito do ótimo álbum "De Pernas Pro Ar" (lançado no final de 2005). Este clipe me lembrou o clipaço de "Mulher Diaba" do Professor Antena (o melhor videoclipe lotadaço de cortes que eu já vi em toda a minha nojosa vida) em que os caras da banda tocam em cenários reais, mas simulando um chroma-key. É perfeito, e não tem nada a ver com esse (a não ser a parte da banda tocando, o que tem em 70% das produções cliposas), mas eu precisava relembrá-lo por sua importância e também porque acho que sentirei o mesmo em relação a "Doce Ilusão" daqui a uns cinco anos.
14° Snow Patrol - You're All I Have: Esse aí é tão sensacional por um motivo não muito nobre, mas válido, tem muitas semelhanças com o também fantástico "Spitting Games", ó só: deliciosamente giratório, num deleitoso travelling constante; petardo playbackiano "ao vivo"; cenário único; closes e big closes na mesma medida (não contei os cortes, mas tenho o palpite de que coincidem); e o mais importante: uma música irrepreensível, assim como quase todo esse "Eyes Open".
15° Vanguart - Cachaça - Paulo Caruso: Apenas no começo tascam um belo de um plano-sequência (só pra iludir a Gigi), mas ainda assim segue bem, da mesma escola do jaggeriano "God Gave me Everything". Uma seqüência assim é como a cana do título, não se dispensa jamais. O clipe é meio "Cara Estranho" (ftgf) misturado com "Packing Thing Up On The Scene", clipe razoável do nada razoável Radio 4. Acredita que a mistureba fica boa? Além do mais, amei os vocais mezzo conformados, mezzo trágicos, não é à toa que são tão elogiados entre os indiekids.
16° Franz Ferdinand - Wine In The Afternoon - Dir.: Blair Young: Primorosos como sempre. Depois do hitchcockianissimosérrimo (você adora isso, eu sei) "Walk Away", não seria nenhuma grande novidade qualquer coisa que o FF viesse a aprontar. Pois sim, mas foi. Para mim, o maior mérito de um bom trabalho artístico, seja na música, nas artes plásticas, no teatro ou o que for, é partir de um clichê para não terminar em um. Ainda na escola do Hitchcock, os Franzs fizeram mais um adorável clipe para se assistir com um sorrisão estampado no rosto, tal qual os do B&S. Além de fazer o básico (traduzir o espírito da música em imagens), este "Wine in the Afternoon" nos transporta ao mundo simples e divertido dos carismaticíssimos personagens, que adoram um trabalhinho manual, e nos faz acreditar que a vida pode ser mais descomplicada do que nós fazemos parecer. Ao menos enquanto dura a música.
17° Placebo - Meds - Dir.: David Mould: Estilosos como todos, este faz uma deliciosa revisitação a si mesmos, pois este clipe remete ao apetitoso "Taste in Men", com a diferença de que neste "Meds", Molko tá bem doidão. Se bem que o plot de "Taste in Men" é o delírio do próprio, hmm... Além do mais, a trama de "Meds" se passa novamente em um hotel, começando no quarto, tal qual "Taste in Men". Deixando um pouco de lado a estorieta, o estilo deste segue a linha bem Placebo mesmo (cenários "anti-sépticos", fotografia escurecida à "Early Edition", mas sem parecer artificial, mulheres magricelas, roupas pretas e cortes rápidos) e isso sempre ajuda, já que, claro, trata-se de um clipe do Placebo. Besteiradas gislescas à parte, o Placebo pode ter deixado de ser o Placebo no quesito música e se tornado a banda mediana que todos sempre disseram que era, mas permanece mostrando a que veio, para fazer clipes, no mínimo, interessantes.
18° Death Cab For Cutie - Crooked Teeth - Dir.: Ace Norton: Muitos (eu) diriam "Pô, puro 'Sledge-hammer'" e nem precisariam se explicar, mas acontece que o clipe desse "Plans" é até mais do que isso. Tá mais para um cover de "Big Time, que também segue a mesma linha do premiado Sled. Brincadeira. OK, ele só não é melhor que o clipe-estrela do Peter Gabriel porque não foi feito em 1987, manualmente, no melhor e mais trabalhoso stop-motion de que já se teve notícia, com massinha de modelar, sem ajuda eletrônica, e ainda com um resultado brilhante, original e ultra-inventivo, senão... Por que to dizendo isso? Será que nenhum clipe poderá se parecer com qualquer outro sem que sofra com críticas nada abalizadas de uma pateta qualquer? Será que todos que usarem umas colagens espertas num clipe terão que carregar o fardo de serem eternamente comparados ao "Sled"????? Infelizmente, sim, mas isso não os impedirá de adentrarem as listas gislescas. Este "Crooked Teeth" é inventivo e divertido a seu modo, quase tanto quanto os tais clipes do Peter.
19° Wry - In the Hell of my Head - Dir.: Rigoni: Adoro esses caras! A banda paulista mais londrina do pedaço fez um (terceiro?) clipe quase tão estiloso quantos eles próprios, e que quase não adentraram esta minha lista de melhores (teria que ser mesmo uma vaca que não entende lhufas para cometer tão imperdoável deslize). Mas, recuperei a sanidade a tempo de dizer um despertístico "Opa lá, não não não e não!". A música é o supra-sumo do supra-sumo, nem precisava dizer e o clipe nos brinda com uns tons avermelhados à "We're All In Love" de encher os olhos. Apesar de trazer consigo uns certos clichês embutidos (garota perambulando na noite, efeito Good Riddance, mistura 100% com Danger Drive, etc) que quase o impediram de ser perfeito, ele está muitíssimo longe de ser ruim. Também, com seus quick-motions bacanudos, dissoluções mil no desfecho e a banda, evidentemente, não poderia ser diferente.
20° My Chemical Romance - Welcome to the Black Parade - Direção do Sam Bayer: Por essa você não esperava, né? Nem eu. A banda é aquela baba adolescente de sempre, da qual os meninos de 13 anos só se livram quando se perpassam dessa odiável fase. Mas não é o estilo Evanescence de ser que eu vou depredar, nem a banda (argh), tampouco a música, que poderia até ser passável se eu estivesse transbordando terebintina. Não, nada disso, vou ELOGIAR. Puta clipaço, estiloso até sua alma cliposa! Tem TV explodindo, tem a banda num desfile à "Minority", só a performance da banda que não convence totalmente, e isso fica ainda mais evidente nas (ainda bem) raras cenas em câmera lenta. O resto é puro Green Day (mais ainda?) e não poderia ser diferente, pois depois de dirigir todos os cinco últimos clipes greenísticos, o cineasta superstar com quem finalmente parei de implicar (mas a inveja ainda permanece) não conseguiria tão facilmente se desgarrar da referência dos meninos da ensolarada Berkeley. E isso é realmente um grande mérito, pois não fosse isto, este clipe nem estaria aqui. Graças a seus tons pseudo-whitestripeanos (fala aí, melhor que vermelho e branco, só mesmo laranjão com preto e verde-limão) o nível de iluminação está impecável, causando um efeito embasbacante (especialmente a luz secundária), indescritível para uma leiga como alguém que eu conheço. Samuel Bayer conseguiu me convencer.
» Outro clipe de outra banda-fenômeno (no pior dos sentidos) que é uma belezinha de se ver é o novo do Simple Plan. Noite chuvosa, glândulas lacrimosas à balde, acidente de carro (CARROSSSSSSSSSS), famílias destruídas, minha dor é maior que a sua... Medo! Isso sem comentar os efeitos, verdadeiros diamantes lapidados aquelas internas, tudo muito bem dosado, sem exibicionismo (ihh, uma indireta a mim mesma). Nada original, nem no plot (clipe-tragédia), nem nos enquadramentos (tradicionalistas, porém nada professorais), mas tudo foi guiado com uma competência que, se não beira a perfeição, ao menos resulta num videoclipe de rara beleza, e que merecia até mais do que o 21° lugar.
» Se eu prestasse ao meu propósito, teria tirado o clipe do Placebo ou o do Snow Patrol e acrescentado nesta lista o retumbante "Starlight", do Muse.
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