Bukowski (1920-1994) foi um dos mais aclamados escritores malditos dos Estados Unidos. Este "Numa Fria" compila trinta de seus contos mais característicos, sucintos, diretos e com linguagem pouco rebuscada, o que explica, em parte, todo o sucesso que alcançou.
Ao bater os olhos nos dois primeiros contos, já se pode notar o rumo que os outros tomarão. Seja na violência injustificada de "Menos Delicado que os Gafanhotos"; seja no questionamento sobre ser ou não ser uma cara legal em "Grite quando se Queimar", a falta de direção e sentido na vida ganha destaque em quase todos os contos desta compilação, com narração tão seca e realista quanto os gritos dos excluídos. Aliás, a ausência de direcionamento permeia não só a vida dos personagens, mas também o estilo narrativo de alguns dos contos, os quais não vão a lugar algum. Mas, ainda assim, é neste livro que se encontra alguns poucos bons diálogos (entre tantos insossos), como o do conto "O Grande Poeta", no qual Barney, após resmungar sobre os sapatos pavorosos das mulheres modernas, ao ser perguntado a respeito do feminismo, diz que "na hora em que elas estiverem dispostas a ter os seios arrancados à bala no exército, eu estarei disposto a ficar em casa e lavar pratos e me chatear catando fiapos do tapete". Mas o melhor diálogo se passa entre Ted e Margaret, no conto "Você beijou Lilly", pouco antes do desfecho trágico. A mulher pergunta ao marido o porquê de terem vivido juntos por tanto tempo;ele diz que foi por comodidade, "como um emprego". Mais adiante, como não bastasse, ele ainda afirma que todo mundo desperdiça a própria vida e que, se ela o tivesse traído (como ele fez com ela), ele não teria se importado.
Por vezes, toca-se em assuntos mais sérios do que bebedeiras, leve escatologia ou mulheres, como canibalismo (Declínio e Queda), descaso (Pescoço de Peru Matinal) e alcoolismo com uma dose de pedofilia (Uma Senhora Ressaca), mas nunca há um aprofundamento no tema. Isso se justifica, mas não totalmente, pela extensão dos contos, todos com menos de 6 páginas.
Ainda sobre os tais assuntos sérios, tenho certeza de que se eu afirmasse que "Já leu Pirandello?" é um conto sobre solidão, caso estivesse vivo, Bukowski relutaria em aceitar, diria que se trata apenas de mais um conto sobre sexo descompromissado.
Outra tirada genal a se destacar é, sem dúvida, uma do conto "Braçadas Para o Meio do Nada". Diz o protagonista: O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse. Mas a gente nunca conhece".
Apesar de toda a desesperança, não se deixa nunca de gargalhar, especialmente ao ler os hilariantes "O Homem que Adorava Elevadores", sobre um elevadorófilo e "Não Exatamente Bernadette", em que um homem arranja um grande problema... Enfim, é o livro mais divertido do Bukowski, e aparentemente, o mais descompromissado também. Ótimo para quem quiser adentrar seu "mundo sujo", que não é lá muito diferente de qualquer outro.
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