Nada mais clichê do que chutar clipes produzidos nos anos 80 para listas de piores, o que não é sem motivo. O fenômeno se dá porque a maioria era realmente uma lixeba, mas resolvi enlistar os poucos que conseguiram ser bacanas, mesmo a maioria tendo sido produzida nos 80'. É sobre isso que falarei nesta série lixesca que estréia agora, sobre os mais deliciosos clipes-tosqueira de que já se teve notícia. A começar pelo meu favoritíssimo, "(Nothing But) Flowers", dos Talking Heads.
O que esse aqui tem de melhor, ele tem de pior, e não estou tirando onda, não. É o meu favoritíssimo e sempre será, por um zilhão de apetitosos motivos, e um deles é porque comete a impossibilidade de sintetizar toda a genialesca carreira headiana nos pouco mais de cinco deliciosos minutos que dura a música.
Já começa a maior palhaçada, um verdadeiro circo de talentosos artistas e letreiros que vão surgindo da forma mais "bem posicionada" possível. Tudo bem que foi feito em 1988, mas eu não posso deixar de me perguntar sempre se ele já era engraçado assim na época em que foi concebido ou se seu caráter humorístico foi ganho com o passar dos anos. Tem tantos elementos que garantem a diversão que mal consigo enumerá-los sem cair na gargalhada a cada dois segundos. De qualquer forma, vou tentar.
A cena mais genialesca de todas vem logo em seguida à mencionada acima, em que Byrne está cantando o primeiro refrão e é empurrado para fora do quadro por um dos membros da banda de apoio. Ele sai de cena todo atordoado, artificialmente atordoado... Pior atuação de toda a História Videoclípica!!! O susto menos assustado que já vi, prova de que Byrne é gênio.
E o que dizer de uma das primeiras e mais desengonçadas coreografias byrnianas, que é loiramente imitada por Tina, numa das seqüências mais hilárias de um clipe já hilariante??? Aliás, todos aqui são excelentes pés-de-valsa, melhor até do que no clipe "Once in the Lifetime", em que, entre outras deliciosas macaquices, Byrne plagia desavergonhadamente a coreografia da mulher que surge na imagem ao fundo do cenário.
Ambos os clipes têm o cenário mais sem-gracês que já vi. O ritmo delicioso da música merecia um cenário mais ou menos como o de "Catterpilar", do Cure. Aqui não se encontra NENHUM objeto de cena (a não ser os instrumentos da banda) que sirva de apoio ou que seja útil ao preenchimento, e ainda assim percebe-se que o ambiente não está vazio, e não apenas pelas pessoas presentes.
Por falar nisso, as tais pessoas... Temos a banda numa de suas performances mais descaradamente tosqueirentas, confirmação que, se não é necessária, é ao menos muito representativa. A cena mais incrivelmente ridiculosa (no bom sentido) é protagonizada pelos oito radiantes integrantes (apoio também),em que eles estão no quadro cantando "uhh, uhh" e os letreiros "the highway and cars agri culture" invadem a tela. Tsc, me lembrou aquelas festas abomináveis de debutantes em que o infeliz que está filmando pede à feliz família que se reúna em torno da mesa principal para um retrato para a posteridade...
Em seguida, outra grande sacada: todos estão concentrados em sua tarefa, olhando fixamente para a câmera, mas tem um senhorito da banda de apoio que mantém um estranho olhar dandista, transbordante da mais descontrolada indiferença, tããão impassível que tenho certeza, Baudelaire aprovaria a atitude. Talvez ele tenha agido assim porque a) Estava de saco cheio de bancar o pateta e queria sair dali o mais depressa possível; b) Não sabia que devia olhar para a câmera, e não para o TP acima desta; c) sabia que estava participando do mais originalmente tosco clipe de todos os tempos.
Bem bacana a cena da banda tocando felizona, ao fundo, empenhada em sua performance tendo o Byrne no primeiro plano. Numa cena assim não teria nada de mais, mas a grande sacada aqui é a iluminação que, se não é grande coisa em todo o restante do clipe (apenas funcional), nesta cena ganha um caráter experimental e muito vistoso. Aliás, o clipe todo prega o estilo livre, quase um Dogma 95, pois foi feito em cores (apesar da luz); nada de efeitos especiais (os letreiros não contam); sem gênero definido; ocultaram o nome do diretor... Ora, se não contrariasse as outras regras, seria um clipe dogmático sim.
Outra cena em que a luz parece muitíssimo bem trabalhada é na hora do "years ago, I was an angry young maaaaannnnn", em que os letreiros vão subindo pelo rosto do Byrne. Conseguiram um efeito belíssimo de luzes, num jogo de tons escuros perfeito, coliriozinho para os olhinhos da Gigizinha.
E o clipe arremata plausivelmente com outra cena de Byrne cantarolando sob a "luz suave" e a imagem se dissolvendo. Que beleza de clipe tosco!
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