quarta-feira, 22 de julho de 2020

A QUESTÃO DO RACISMO NA OBRA DE CAIO FERNANDO ABREU

É fato comprovado que Caio Fernando ocupa o primeiríssimo lugar na lista de mais resplandecentes autores contemporâneos brasileiros da Giselíssima aqui, portanto, seria incorreto e injusto enxergar esta simples constatação como uma implicância gislesca sem fundamento.
A grande verdade é que, ao reler alguns contos do queridíssimo Caio Fernando, notei traços supostamente racistas, em sua obra e até em alguns de seus argumentos. Veja só a seguinte passagem que destaquei de seu conto "Os Sapatinhos Vermelhos": "Tinha traços finos o negro, afilados como os de um branco, embora os lábios mais polpudos, meio molhados. Músculos que estavam dentro da camisa justa, dos jeans apertados. Leve cheiro de bicho limpo, bicho lavado, mas indisfarçavelmente bicho atrás do sabonete".
Fica claro, mais que claríssimo, aliás, que a protagonista deste conto não é racista. Ela está profundamente desolada, oh, céus!, procurando desesperadamente não um consolo (pois até mesmo isso ela parece ter desistido de encontrar, que vida de merda!), mas uma VINGANÇA!
Ela envolve-se com os três desconhecidos para vingar-se do ex-amante, que havia rompido com ela recentemente; e porque precisa sentir-se novamente desejada, nem que fosse por uma única noite, como fica evidente durante a narração.
Do mesmo conto, destaco outro trecho em que se torna ainda mais manifesto o caráter racista da obra de Caio (não necessariamente dele): "O negro acompanhou o seu olhar, virando a cabeça sobre o próprio ombro. O queixo era brusco, feito a machado. Mesmo recém-feita, a barba rascaria quando se passasse a mão".
Em outro trecho, quando se descreve a profissão, o signo e o nome de cada um dos três homens, destaca-se que o negro era de Áries e (ALERTA!), jogador de futebol. Ora, ora, o que vemos então? Se não é apenas mais um estereótipo do jovem negro que só consegue vencer na vida se souber jogar futebol, hein...
O primeiro trecho que destaquei se completa com este: "O tenista-dourado a fez encostar a cabeça entre os dois peitos dele, cheiro de colônia, desodorante, suor limpo de homem embaixo da camisa pólo amarelinha".
Ah, então é assim?????? Quando se trata de descrever o homem branco, Caio utiliza-se de palavras como "suor limpo de homem", ao invés de "cheiro de bicho limpo, bicho lavado, mas indisfarçavelmente bicho" ou de "queixo brusco, feito a machado", como se o único jeito de um negro ser bonito seria se parecesse com um... branco.
Continuando... Quando os quatro chegam ao apartamento, o tenista escolhe um disco de Fafá de Belém para tocar, já que a escolha do rapaz negro, Alcione, fora misteriosamente descartada. O único elogio que é feito ao negro é num trecho em que a protagonista comenta a respeito de seu peito largo.
Mas, esqueçamos isso por enquanto, pois tudo isso se encontra no terreno da ficção. No entanto, há um trecho que destaquei de uma entrevista, em que Caio se mostra preconceituoso também a respeito do Nordeste. Quando perguntado se intencionava escrever sobre o nordeste brasileiro, ele respondeu:
"Não, odeio o Nordeste. Eu acho que o Brasil termina - a faixa sanitária - no norte de São Paulo. No Rio já me sinto no Havaí. Nada a ver". E completou: "Eu nasci na fronteira da Argentina. Na minha cidade as pessoas eram todas alfabetizadas. Não tinha isso de palmeira e rumba, coisa de país esquizofrênico, superdividido. Não sinto nada em comum com Pernambuco, não tenho nada a ver com a Amazônia. Tenho muito mais a ver com a Argentina. Não sei fazer alguma coisa por alguém distante. É tão remoto como fazer alguma coisa pelo Zaire".
Em minha condição de subscritora, posso entender a resistência do meu fofinho em escrever sobre lugares distantes, deve-se escrever apenas sobre o que se compreende e é mais fácil compreender o local onde fomos criados, não um local distante, mesmo que seja dentro do mesmo país. Quando se ultrapassa essa linha, corre-se o risco de cair nos piores estereótipos (ei, não olhe para mim) que se possa imaginar e, mesmo uma boa intenção, pode ser desperdiçada e mal-entendida. No entanto, não posso deixar de considerar que essa coisa de "faixa sanitária" é furada!
Outra de suas declarações que me deixou desolada foi esta: "Macunaíma e Macabéia são dois arquétipos de brasileiros muito bem delineados". Ora, essa era a visão que ele tinha do brasileiro?
Au! Apesar de concordar que eles são dois dos personagens mais bem compostos (apesar de detestáveis) da nossa Literatura, eles eram bastante ineptos, tanto social quanto intelectualmente. Claro que eles foram criados com essa intenção, mas... veja só, Macabéia era o protótipo da moça caipira e burra de quem todos mangavam, mais parece uma cópia nojosa e mal-sucedida da contundente e profunda Biela (do pulcríssimo "Uma Vida em Segredo", da maravilhosíssima obra de Autran Dourado); já Macunaíma era a adulteração de um índio ignorante que só entendia a violência como forma de conseguir o que almejava.
Em outro conto caiofernandístico, "Linda, Uma História Horrível" (do pulcrissimosérrimo "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso"), ao ser questionada por seu filho sobre por que insistia em morar sozinha, ao invés de ir morar com a filha, a personagem responde: "Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra".
Do mesmo conto, friso outro trecho, a respeito da empregada: "A Cândida, lembra dela? Ô negrinha boa, aquela. Até parecia branca". Ok, quem está sendo racista é a personagem, não o Caio, mas a teoria se sustenta.
Comentei aqui sobre alguns de seus contos e apenas sobre uma entrevista, minoria constituinte em sua vasta e harmoniosa obra, mas nada disso quer dizer que ele tenha sido uma pessoa racista. É de conhecimento geral que ele não era assim, e é exatamente por isso que eu posso continuar a vê-lo como o grande escritor e a pessoa maravilhosa que ele sempre foi e que se pode conhecer melhor através do belíssimo livro "Cartas", fabulosa compilação organizada por Ítalo Moriconi, postumamente publicada e altamente recomendada.

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