terça-feira, 28 de julho de 2020

PUNCH! PUNCH! PUNCH!

Resenha do disco "Leave the future behind", segundo lançamento do Janice Doll (rockbrasilia.com.br e no site da banda desde ago-08)

Reduzir uma banda a uma única palavra pode parecer uma enorme crueldade (ou injustiça, ou criticice de crítico amargo, ou falta do que fazer, etc...), mas não neste caso e não fazendo uso de todos os bons sentimentos que são arrancados de cada ser abençoado que decida ouvir essa banda. Mas a verdade é que "punch" parece ser a palavra-chave para designar o Janice Dolls. Pois é, depois da esquisitice cabarelística do ótimo Dresden Dolls, da ousadia maquiagenzosa dos New York Dolls e da rapidez dos Toy Dolls (quanta boneca!), chega a vez do Janice Doll, bandaça formada em 2002 e que já tem dois álbuns lançados. Ambos os discos ("Silent Seasons" e "Leave the Future Behind") abusam da fórmula new metaleira (sim, ora, ora, quem diria que o já famigerado nü-metal poderia algum dia produzir algo de notável, hein?) e ainda assim conseguem se destacar como uma das mais intrigantes formações musicais de que se tem notícia atualmente.
Os mais cínicos podem até afirmar que a banda não traz nada de novo, que o sucesso deles depende do gosto do grande público pela mesmice ou que qualquer um que faça barulho consegue facilmente empolgar platéias de diferentes tipos. Ora, com vocais gritados, nervosos, letras empolgantes e um som que parece familiar mesmo sendo original, não é necessário mais nada, muito menos fugir à uma "fórmula" que tem dado tão certo. Se os já "velhos" expoentes do novo metal como Korn e Slipknot não se repetissem tanto, teriam feito músicas assim. Não que os Janice Doll tenham muito a ver com essas supracitadas. Não, não, eles estão mesmo é no rol de um Smashing Pumpkins, de um Placebo, de um QotSA, como já foi repetido por aí sempre que se falou sobre eles. Em comum com os malucos do new metal eles têm as variações instrumentais agridoces e os vocais rapcore, mas não cantado daquele jeito enjoativo do (argh) Limp Biskit, e não durante a música inteira, mas apenas em alguns trechos, e de um modo mais mod, verdade seja dita e redita. Para os que adoram rótulos, pode-se dizer que é um Mod-Hardcore – daí deve ter surgido o auto-rótulo Alternativo Moderno.
Som absurdamente empolgante, paulada na zoréba, totalmente alucinado, melódico, barulhento, tudo isso misturado numa sonzera que parece não cansar nunca. Taí a não-fórmula utilizada nos dois discos da enérgica e energética carreira do Janice Doll.
Esse primoroso "Leave the future behind" está cheinho de músicas que conquistam logo à primeira ouvidela, como é o caso de "Tomorrow Never Ends", petardo glorioso que começa com uns acordes à Iron Maiden, depois passam aos vocais calmos, que logo se tornam agressivos e nos levam ao refrão-frase que intitula a música. Simples e perfeita.
A faixa de abertura, "Shine in the Sunlight" começa com um solo de bateria espanta-vizinhos (só os que têm mau-gosto, do tipo "vizinho das antigas") e logo entram os outros instrumentos e também a voz, dando o mesmo tom de urgência ouvido em "Backfire", que por sua vez, lembra Nine Inch Nails, lembra Street Bulldogs, lembra Ocean Colour Scene, lembra tanta coisa boa...
"Self Defense", com sua letra strokiana, é para se ouvir com as luzes apagadas e se entregando à vontade de fazer uma perfomance de air guitar ao final. Nos faz ganhar o dia.
A faixa que intitula o disco traz letra desmotivada, quase mallcore, mas sem a ladainha emo que tornou o estilo famoso. Ainda temos a barulheira morfológica que preenche todo o disco e mais o peso, peso, peso, guitarras doidas, vocais potentes, bateria meio quebrada, impossível ser melhor.
Se bem que é difícil mesmo apontar as melhores nesse disco. Para se ter uma idéia, a quantidade de vezes que se repete "Uau!" enquanto se ouve esse disco deve ficar numa média de 20 por minuto.
"Breath" é a faixa mais rapcore e, para que não reste nenhuma dúvida, e ao final tem até uma rápida performance de DJ manipulando uma pick-up.
"Morning Drive" é a cara da banda, e talvez por isso repita os mesmíssimos elementos existentes nas outras. Mas lembre-se que isso só seria um problema se as outras não fossem ótimas. A letra é embolada num desespero que passa a quilômetros de distância da onda fake, mas que certamente agradará aos emos, assim como a todos, mesmo não tendo os vocais quase derramados de "Overdramatic" (do primeiro disco), característica essa que não entendo por que ainda agrada tanto a alguns pós-adolescentes.
Outra que segue essas mesma linha é "Lestat", que é ainda mais desesperançada e mais cortante, minha terceira favorita nesse álbum (sendo, ahém, a 1ª "Tomorrow Never Ends" e a 2ª "Self Defense"). Começa puro Led Zeppelin (ou Metallica, dependendo de quem relembra) e em menos de trinta segundos passa a... My Chemical Romance! Sim, e isso não é uma alfinetada, até porque o MCR tem lá suas qualidades não merece as patadas que anda levando desde que começou a fazer sucesso. A fúria, o transbordamento de emoções, tudo isso ainda cai muito bem no rock'n'roll, basta que se saiba como juntar tudo num pacote coeso. Além do mais, um refrão pegajoso e gritado ao limite como "I Got Youuuu" não poderia resultar noutro tipo de gis-analogia. Tá, talvez pudesse (Snow Patrol? Arcade Fire? British Sea Power turbinado? Oh, deixe-me divagar...), mas certamente não hoje.
"Memories" tem a letra mais interessante do álbum. São tantos os trechos a se destacar que eu deveria citar a letra inteira, mas versos como "You impressed me, made me feel alone" e "No mistakes and no one to blame" realmente não nos instigam, ou isso é só na minha cabeça? Bom, destacam-se também as ótimas guitarradas no final.
"Butterflies" é assim, linda e quietinha, embora barulhenta (rifferama assassinante, aderência respeitável), ecos de Bowie, mais especificamente da maravilhosa "Something in the Air". Assim como esta, poderia estar nalguma trilha sonora de algum filme bacana. A letra retoma a esperança perdida, em contrapartida às outras fraixas, e fecha o disco muito bem. Um disco que, assim como o primeiro, não te deixa respirar.
É como eu nunca digo, bandas com boas influências não faltam, mas poucas delas (especialmente as que têm mais tempo de estrada) sabem combinar os bons sons ouvidos para fazer música de qualidade. Isso o Janice Doll faz primorosamente. Não só usam suas referências em prol dos sons mais pesados (missão esta que por si só já é difícil), como também manipulam essas mesmas referências para tornar seu som próprio, com o jeito deles.
Por último, um recado aos que ainda não acordaram: os dois discos completos estão disponíveis para download tanto no site da banda (o altamente recomendado http://www.janicedoll.com) como também no MySpace (www.myspace.com/janicedollband).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Resumo do Livro: "Os Segredos da Mente Milionária", de T. Harv Eker. Editora Sextante.

"Tudo o que alguém classificar como obstáculo, reclassifique como oportunidade." Harv Eker 1,2 milhão de exemplares vendidos. E ta...