Há poucas dezenas de minutos ele próprio não se imaginaria em tais condições. As malditas circunstâncias continuavam a lhe ser injustas e isso o colocava em um estado mais que deplorável. A temperatura daquela noite era congelante e ele ali jazia, num canto imundo de um galpãozinho nojoso. Mesmo não estando com a boca ou com os olhos vendados, a escuridão do local impedia-lhe o olhar e, sua autointitulada coragem, o grito.
Apesar de ser esse seu estado natural, há muito não se via tão encrencado. Os problemas sempre o perseguiram e, como não conseguia evitá-los, tratava de tentar resolvê-los. No entanto, daquela confusão preferiria fugir, se houvesse alternativa... E não havia nenhuma.
Já sentia que tinha perdido o jogo ou que estava prestes a perdê-lo. Não vencesse aquela batalha, tornar-se-ia ela a última de sua vida, de uma série de auto premiações e de enganos, de uma existência outrora vitoriosa.
Bem, ao menos não morreria como um perdedor, afinal, ela tinha-lhe surrupiado a oportunidade de fazê-lo. Era essa uma preocupação a menos... Ou a mais. Desde que tomara conhecimento de sua atual situação, refazia a si esta indagação a cada cinco segundos. Mesmo assim não obtinha resposta, que caso existisse, deveria ser bastante simples. Ou talvez não houvesse razão, o que também seria bastante simples.
Não, provavelmente não havia razão, e deveria haver. Não por uma simples obrigação auto imposta, mas por uma questão da mais neutra justiça. Isso se considerando, é claro, que ainda houvesse algum resquício desse elemento de que a humanidade tanto carece. Parou de perguntar-se obviedades como “Que diabos ela pretende com isso?” e “Quando vou me libertar desta gaiola gosmenta?”, sabia que, de uma forma ou de outra, muito em breve teria as respostas. No entanto, pressentia que, por menos intragáveis que fossem as tais respostas, em nada o animariam.
Concentrou sua atenção em observar aquele ser infeliz e definitivamente desajeitado, principal causa de sua atual angústia. Mesmo com toda a obscuridade daquele ambiente desagradável, sua excelente visão permitia-lhe enxergar o semblante da mulher estacionada a uns míseros metros dele. Não expressava coisa alguma. Ela parecia de pedra, não permitindo transparecer nada além de uma completa ausência de emoção, fato que o deixou ainda mais assustado.
Desde o momento em que o aprisionou, ela não tinha proferido uma única palavra. Nem mesmo um resmungo ou um suspiro. O elevado grau de silêncio que ali reinava o esbaforia como se o fosse sufocar.
Sabia que não podia ficar parado, entregue a seu nefasto destino... Não, não era sensato, muito menos saudável, entregar-se assim. Por outro lado, também não lhe era viável reivindicar, pois isso poderia significar renunciar àquela “paz” inconscientemente solicitada de que sempre necessitara. Faria tudo, faria algo…
NÃO!
Não faria nada, nada. Tomou a decisão de aceitar sua derrota, pois ali, perante o inimigo de blusa vermelha, sentia-se impotente, indefeso, entorpecido.
Talvez não um acaso, talvez não um talvez. Talvez ela planejasse apenas aplicar-lhe uma lição que erroneamente julgava que ele devesse aprender. Talvez um acerto de contas por algo que possivelmente ele tivesse feito. Talvez ela não passasse de uma louca recém-fugida de algum sanatório ou o equivalente semi-aceito pela sociedade — no caso, uma ex-monja ou mesmo uma ex-detenta.
Ele questionou-se sobre como definir alguém que se propõe, sem motivo aparente, a amedrontar outro ser humano daquela forma. Seria esse alguém muito corajoso ou um mero covardezinho filho de uma p***???
Talvez ambas as alternativas se alternassem, talvez nenhuma se encaixasse...
Talvez...
Por falta de opções de entretenimento mais aprazíveis, resolveu pensar sobre como agir quando e se aquela mulher lhe viesse falar. Ele sabia que tinha muito a perder e muito pouco a ganhar. Assim, tentaria um diálogo falsamente amigável ou contentar-se-ia apenas em engasgar com as próprias palavras? Tentaria intimidá-la com argumentos ameaçadores, como aqueles que costumava aplicar a seus devedores?
Não importava, ela tinha o controle e isso simbolizava sua majestosa e pré-anunciada vitória. Para ele só restaria a dignidade dos fracos, ou a das vítimas, o que daria na mesma.
A aparente indiferença e o infindável período de inatividade daquela respeitável representante da classe dos sem-caráter começou a exasperá-lo. Não saber até onde aquilo chegaria o enlouquecia, num misto de angústia e tédio.
Por que diabos torturá-lo daquela maneira? Como ela pôde utilizar-se de artifícios tão personalizados (como o clichê horroroso de esperá-lo dentro de seu carro) se nem ao menos o conhecia? Questionou-se sobre o conhecimento que ela poderia ter de sua pessoa. Será que ela sabia quem realmente ele era? A ele era evidente que o motivo se ocultava aí, neste detalhe. Ele a teria reconhecido se já a tivesse visto antes, disso tinha certeza. Memorizava bem todos os rostos que cruzavam seu caminho e, no entanto, agora sua invejável memória já não lhe era mais útil.
Ainda que lhe doesse, pensou em seu lar. Se ela o deixasse sair, não quereria voltar para lá, mas fugir. Fugir de que? De sua adorável esposa que lhe torrava a paciência; de seus simpaticíssimos filhos que sempre lhe perguntavam o que ele lhes trouxera de presente?
Ora, todos para o inferno!
Que o deixassem em paz, em paz com sua humilde paz de plástico, então reduzida a um pequenino monte de bórax e cola.
Não podia pensar mais nisso, não podia mais pensar em nada… Nem na total insignificância de seu ser, ou de sua vida, ou de todas as vidas de todo o mundo; não podia pensar em como escapar, nem mesmo em como pensar, tampouco podia ou queria ou ousaria pensar em como manter o equilíbrio de seu corpo ao se deitar.
Mas, sabia que se saísse dali com vida, não poderia aproveitar a tal vida da qual todos pensavam que ele dispunha, a vida que jamais tivera, a vida que certa vez fingira ter.
Então, num acesso de cólera contra o mundo, e numa tentativa desesperada de aplicar o pouco que aprendera sobre psicologia reversa barata, ajoelhou-se e implorou a ela que não o matasse, que o permitisse voltar para sua família, que os amava muito e que queria vê-los novamente ainda muitas vezes e viver ainda muitos e muitos anos. Pediu a ela que, não importando qual a razão pela qual ela o prendera ali, que a esquecesse, que o deixasse ir, que não estragasse as vidas de ambos, que reconsiderasse, que não sabia o mal que tinha feito a ela… Ofereceu-lhe dinheiro, aumentou a quantia, e a aumentou novamente e novamente e novamente e nada…
Nenhuma das promessas pelas quais ele destroçava altas porcentagens de seus neurônios, nenhuma delas era capaz de fazer a ultra gélida e estranha mulher sequer olhar para ele. Do alto de sua distanciação, perdida em sua própria perdição, a mulher, inabalável, parecia não ouvi-lo.
Ele, por sua vez, não parava, não tencionava fazê-lo tão cedo, continuava empenhado em suas deprecações, em expor suas ideias e seus conhecimentos sobre os supostos terrores que via através de uma charlatã futurologia enxadrística, preocupado em esconder o próprio desespero, que há muito esquecera seus tempos de sutileza.
Foi então que a mulher aproximou-se dele, contemplou sua carcaça por uns poucos segundos, soltou um suspiro indefinível, reclamou que a rouquidão da voz dele arranhava sua própria mente, deu meia-volta e deixou o recinto.
quarta-feira, 22 de julho de 2020
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