segunda-feira, 20 de julho de 2020

EMULANDO SHAKESPEARE

Se quiser imitar o grande mestre, não pode ter receio de se tornar um perfeito chatola, pois só sendo perfeitamente mala para poder escrever textos perfeitamente pedantes. Vamos às regrinhas:
Coloque milhares de personagens bobos e que não tenham nenhuma função a não ser confundir a cabeça do bem-intencionado leitor. E não se preocupe com o destino que dará a todos eles, porque pode ter certeza de que seu leitor também nem se importará com isso;
Se você quiser alcançar a tão almejada "riqueza psicológica" que os personagens shakesperianos têm, basta planejar personagens planos disfarçados de personagens redondos, assim você conseguirá que os críticos se rasguem em elogios. Sim, incrivelmente esse truquezinho chinfrim dos tempos de Sófocles (outro mala sem alças e sem rodas) ainda funciona na nossa época tão telenovelesca. Aliás, funciona exatamente por causa disso;
Inclua muitos "espíritos" e seres sobrenaturais detentores de poderes de meter inveja até nos X-Men. Acredite, isso dá certo até hoje, basta ver o sucesso que as Rowlin da vida fazem. Já o sucesso do inventivo Tolkien eu não explico;
Faça os personagens serem tão chatolas quanto os dele, sempre a repetir ad aeternum a mesma maldita fala até que entre na cabeça do interlocutor e não saia mais, como ele fez na chatíssima "A Tempestade" (numa época em que ele já estava gagá);
Pode reparar que nas peças do nosso "ó mais charlatão", a ação sempre poderia ocorrer em um ou dois cenários os mais simples e, no entanto, ele sempre incluía milhares de cenários sem pé nem cabeça, totalmente desnecessários. Isso porque ele queria impressionar pela grandiosidade e pompa de suas produções, ao invés de se ater ao bom e velho texto. Mas eu concordo, o público aprecia mesmo é o espetáculo como um todo, e o Fallabella do século XVI sempre soube o que o público queria;
De vez em quando inclua uma ou outra frase pseudo-espirituosa para impressionar os críticos tão charlatães quanto você. Exemplos disso podem ser econtrados aos montes em sua peças mais famosas (por isso são as mais famosas): "Hamlet" e "Romeu e Julieta";
Lição de moral pé-no-saco não pode faltar. Essa é a parte mais fácil para os autores de hoje, pois lhes basta abrir qualquer livrinho vagabundo de "auto-ajuda" e copiar os primeiros parágrafos.
Obs.: Eu sei, eu sei, passei a impressão de que não gosto ou não entendo a obra shakesperiana. Nada disso, caríssimo lixonauta. O que ocorre é que Shakespeare foi um dramaturgo de algum talento, mas passou bem longe da genialidade. Ele foi superestimado pela crítica e continua a ser, porque em sua época poucos ou nenhum autor além dele foi capaz de tocar diretamente o coração das massas. Medíocre, então? Eu não diria isso, ele certamente tinha seu valor, mas havia outros que poderiam e mereciam ter tomado seu lugar. Ibsen seria um deles, se tivesse nascido no mínimo 400 anos antes, e dotado de muito carisma e de uma esposa rica, coisas que ele nunca teve.

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