segunda-feira, 20 de julho de 2020

AUTOBIOGRAFIA AUTO-ELOGIATIVA DO TELEVISOR*

"A televisão é um meio. Assim chamada porque não tem princípios, nem fins."
B. Ernie Kovals

Quem, entre todos os seres que habitam esse planeta, poderia algum dia vir a imaginar que do casamento de meras emissões de elétrons com alguns feixes de luz nasceria uma criaturinha tão magnificamente admirável como eu? Eu responderia isso já, mas como vocês terão ainda muito tempo para conhecer os detalhes da minha vida, por hora ignorarei sua avidez por mim e apresentarei meus queridíssimos genitores, começando por meu pai, o Selênio.
Tímido como sempre foi, Se passou grande parte de sua vida seguindo à risca a máxima "Bene vixt qui bene latuit" (seguida também por Descartes, Salinger, Kubrick, Giselly Grix e por outros indignos de nota), até que em 1817 foi obrigado pelo meu vovô, Jacob Kerzelius, a se mostrar ao mundo. Mas a verdade é que, não fosse meu vovozinho ter submetido meu pobre papai a tão afrontosas aparições públicas (um exemplo disso é que, tão logo mostrou-se para o mundo, Se ganhou logo a cruenta alcunha de "Malcheiroso Selênio"), eu jamais teria nascido.
Já minha incandescente mãe, a Luz, sempre foi enérgica e energética, um fabuloso milagre óptico. Como veem, eu realmente tenho a quem puxar! Muitos devem muito a mim, mas é certo que devem muito mais à minha mãezinha. A senhorita Visão, por exemplo, que permite aos humanos enxergar o mundo (e a mim, o que é bem melhor), não serviria para absolutamente nada não fosse a existência dela. Louis, amigo íntimo da mamãe, me falou que o que mais apreciava nela era sua personalidade instável, ora ondulatória, ora corpuscular, embora nem mesmo ele estivesse tão certo sobre isso, pois já naquela época ela tinha fama de ser mui misteriosa — mas não uma esfinge sem segredo, como muitas por aí, é preciso que se deixe isso bem claro. Pois é, ainda hoje ela mantém a mesma aura de mistério, não mudou nadinha, pois ela mesma me ensinou que não há por que mudar se tudo estiver indo bem.
Já nasci revolucionário, distinto, no início da deliciosa década de 1910 — apesar de que minha gestação demorou um bom tempo, vindo desde o longínquo 1873, com os estudos sobre células fotoelétricas empreendidos pelo Jim, um dos meus anjos da guarda, quase tão importante para mim quanto Campbell, Henrik ou Karl, pessoas que também tornaram possível o meu nascimento, cada um a seu modo.
Alguns consideram que minha gestação foi demorada (fato com o qual não posso concordar nem discordar, já que fatos existem unicamente para que nos frustremos ao fracassarmos nas tentativas de entendê-los, e não para que concordemos ou não), o que é verdade, mas isso não vem a ser um problema. Ora, nenhum ser minimamente racional poderia esperar que se criasse uma das mais importantes obras-primas da humanidade por dia, até porque, mesmo que isso fosse possível, eu não seria hoje considerado como a maior das invenções humanas de todos os tempos — inclusive, tomando o lugar da pretensiosíssima roda, que teve de se contentar com uma segunda colocação bem distanciada, a constar.
Bom, como eu ia dizendo antes de ser bruscamente interrompido por mim mesmo, logo que cheguei a esse mundo, no intuito de embelezá-lo (pois ele bem que estava precisando, embora não tanto quanto nos dias atuais) eu era o mais novo sonho de consumo de 11 entre 10 seres humanos. Até então, ninguém tinha ainda presenciado espetáculo igual, que dirá parecido. Eu estava não apenas anunciando, mas inaugurando uma nova era de sonho que há muito se perdeu, e o fiz com maestria. Ímpar como só eu poderia ser, sempre levei sorrisos onde quer que eu tenha ido e jamais alguém dotado de bom senso e/ou senso de justiça dirigiu a mim qualquer palavra mal-educada, muito menos ofensiva. Não importa o grau de ignorância e descaso com que os homens costumam tratar a si e aos outros, mesmo quem poderia com razão encabeçar a lista dos espíritos de porco fala bem de mim e mal consegue conter o êxtase ao me avistar, mesmo nas ocasiões mais tristes e difíceis. Não há o que contestar, eu vim ao mundo para alegrar os lares, do mesmo modo que lindo bebezinhos vêm para nos importunar.
Ah, acaso esteja curioso a respeito da real necessidade desses autoelogios que a muitos podem parecer excessivos e sem validade, aí vai uma explicaçãozinha que lhe elucidará sua mente anti-televisiva. Primeiro, quem melhor do que o próprio televisor para elogiar-se, hein? Cada elogio vindo de mim mesmo é comprovadamente verdadeiro, pois é correto que ninguém me conhece melhor do que eu mesmo, logo, não resta espaço para dúvida.
De fato, eu sou tão desumanamente maravilhoso que, mesmo nesses tempos conturbados de revolução tecnológica, eu não perdi espaço — como muitas más línguas que não passavam de arremedos mal-acabados de Nostradamus disseram. Não, não, não, muito pelo contrário, ganhei ainda mais espaço do que já tinha, e que era bem mais do que eu precisava, embora fosse bem menos do que o que eu mereço.
Enfim, não só modernizaram meus sistemas de funcionamento (introduzindo novos modelos com telas de cristal líquido ou de plasma, para substituir meu querido tubo de raios catódicos), como também me deram novas funções. Isso sem falar no modo como me disseminei, não como um mero modismo, mas como as calças jeans, sempre atuais.
Os incautos devem se perguntar como eu consegui tão longo alcance. Pois bem, explicá-lo-ei em pouquíssimas palavras, para que não digam que não me faço entender: o segredo do meu sucesso não é segredo para ninguém, é que eu simplesmente tenho a melhor relação custo-benefício não apenas do mercado de eletroeletrônicos, como de todos os outros. Aliás, no meu caso, a expressão correta seria relação valor-benefício, pois apesar de custar pouco, eu valho muito.
* Texto dedicado ao Billy Corgan que, assim como a Gigi, não assiste televisão; e extraído do gislivro e-maginário "Panegírico do Televisor".

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