quarta-feira, 22 de julho de 2020

A MÚSICA É DEMAIS, JÁ O CLIPE...

Aqui compararei os clipes mais toscos com outros mais reluzentes que compartilham da mesma idéia, gênero ou estilo, mas que não obtiveram o mesmo resultado. Anda, vai.
Apesar de seguir a mesma linha do primoroso "Summer", do Buffalo Tom, este detestável "Luka", cover que os Lemonheads fizeram para música de Suzanne Vega, não chega nem ao rodapé de seu irmãozinho.
Ambos apostam em imagens aleatórias e utilizam-se também do conceito "imagens de arquivo" para contar não uma estória, mas várias, sem, no entanto, se aprofundar em nenhuma delas. Não estou criticando o plot, mas sim o modo como foi conduzido.
A grande diferença aqui está no roteiro. Se ambos guardam muitas semelhanças na idéia inicial, elas somem agora para dar lugar às milhares de diferenças que existem entre esses clipes, tão iguais e tão diferentes. Se em "Summer" as imagens têm a função "fotográfica", de registro dos bons tempos dos quais os personagens quase se esqueceram. Tudo bem que em "Luka" essa função é a mesma, mas não se obteve um resultado tão satisfatório quanto.
Em "Summer", até mesmo o escorregão que Tom (o baterista, não a banda toda) leva numa pedra tem lá seu significado mais profundo. Representa, evidentemente, os percalços da vida, em contrapartida a todo o restante do clipe, que mostra o lado bom (hein? donde??) de nossa existência nojosa e especialmente, do verão. Nunca saberei o que é isso, por conta das monções, mas tudo bem.
As bonitas cenas na praia em P&B (não podia deixar de destacá-las, são a representação perfeita de to kalon) representam um verão que não é assim tão colorido, até porque alternativo que é alternativo não curte praia. O tema principal, apesar de pregar o sem-temismo, é o tempo. Isso se evidencia ainda mais não apenas na letra da música, mas também na cena em que se quebra uma ampulheta, como se explicitasse a vontade da maioria dos humanos: controlar o próprio tempo. O tempo aqui não é apenas o passar das horas, dos dias, das semanas..., mas a mudança de clima, as estações do ano se alternando. Eu sei, quanta baboseira, nem sei por que to falando disso.
Continuando... Nas cenas em que a banda aparece tocando, vê-se o sol no horizonte, provavelmente em seu crepúsculo vespertino, a melhor hora do dia para se filmar o que quer que seja. O lindérrimo efeito que o treco provoca é irresistível e faz com que o espectador queira estar lá. Enfim, um clipe dos mais primorosos.
Em contrapartida, que diabos temos em Luka? Que maldita mensagem tiramos daquele emaranhado de horrendas cenas sem sentido? Alguns diriam que é a mais ou menos a mesma coisa de Summer (lembranças), mas não. Por que dois clipes que nasceram gêmeos se tornam tão desiguais? Por que????
Porque tem imagens aleatórias de uma tapada desmanchando sua escova; crianças que não se enxergam (assim como a maioria) que, tfu, pensam ser bailarinas; uma pateta que está aprendendo (mal) a linguagem dos sinais, enfim, uma podreirada só. Para aliviar um pouco a parada, de vez em quando somos brindados com uma imagem de um braço de guitarra (só para que não digam que não se trata de um clipe de uma banda de rock) ou de alguém praticando algum esporte radical, coisas assim. Por isso é que criei essa lista, especialmente para incluir o clipezinho dos Lemonheads, que realmente merece o posto de pior dos anos 90.
Agora, destaco o lindoco "Inbetween Days", do adorado The Cure. Estava em dúvida sobre qual clipe escolher para integrar esta listeca, mas lembrei-me de que o queridaço Robert sempre detestou este clipe (por causa das meias "cololidas" voando...). Eu jamais me incomodei com isso, acho até que é um clipe bem bacana para a época em que foi produzido, o segundo do Cure que contou com a direção do Tim Pope (sendo o primeiro "Lovecats"), que nos 90' viria a dirigir também o sardônico "Never Enough".
Que tal agora uma "meias e verdades", hein? Se tirássemos as tais "meinhas", o que restaria seria apenas a banda fazendo nada e Robert medindo o cenário, muito sem graça, por sinal. As meias ai são cruciais, elas dão o colorido fantasioso que o clipe precisava; fazem parecer que a música nem é tão triste quanto sentir-se tão velho a ponto de ter vontade de chorar; são essencialíssimas também na arte de mandar para lá e para cá a câmera, dando o efeito deslizante que permeia todo o clipe. Ora, não fosse isto, nossa protagonista (a grua) não teria a mesma importância, podendo até ter sido descartada.
Em suma, o que salva esse clipe de ser um belo exemplar de como não se deve filmar, é justamente o efeito meístico de viver.
Analisemos agora o clipe da fantástica "Only Shallow". O My Bloody Valentine sempre foi climático até nas imagens, não "apenas" no som, o que na teoria seria o bastante para garantir clipes não menos que exemplares.
Mas não é nada disso. A genial barulheira quase é posta a perder quando se presta atenção às cenas, invariavelmente péssimas. Aliás, é um clipe de uma cena só, mas que nada tem de plano-sequência. Tem alguns cortes, mas nenhum serve a seu propósito (aliás, o clipe todo é sem propósito), pois não antecedem uma mudança de cenário ou de enquadramento, ou mesmo de um "personagem" para outro.
Outra coisa que aumenta o alto grau de irritância neste clipe é o fato de que sempre focaliza no rosto de Bilinda, que NUNCA sai de cena! Realmente não sei mesmo qual é a desse clipe, ele é o mais inútil de todo o planeta Terra, o troço não ata nem desata, não caga nem desocupa a moita, não ilustra a canção da forma devida, só provoca o que não deveria provocar: desgosto!
Sobre "Superstar", cuja música é um cover muito superior à versão original carpenteriana, o Sonic Youth mandou muito mal. Na verdade, nem tanto, pois o clipe nem é ruim, e se fosse, não seria tanto por culpa da banda, e sim da direção do David Markey.
O que se vê neste clipe é de uma pieguice sem igual, do tipo "ela morreu, minha vida acabou, buuááá, buááá...", focalizando a estorieta na musa inspiradora da canção. Lembro-me que, todas as vezes que eu via este clipe, nada fazia a não ser gargalhar pelas semanas seguintes, tal qual nosso herói Homer Simpson naquele episódio cujo titulo me foge à memória.
De tão bobo e ultra-emotivo, parece falso, daí seu caráter hilariante. Já começa a ladainha de "excessiva sentimentalidade" nas cenas em que a banda está no palco, nuns supercloses do incrível Thuston, e cenário ao estilo dos bailinhos dos anos 20. Conclusão: de tão tosco, eu penso até que é genial.
Outro clipe que nada acrescenta a nada é o de "We're All In Love", do Black Rebel Motorcycle Club. A música, uma das cinqüenta melhores do 00', é o único item que se preza neste clipe, cópia do pai dos clipes da segunda geração beatnik: "Smells Like Teen Spirit", inegável clássico loser dos 90'.
A parte mais marcante de "We're All In Love" é justamente aquela luz vermelha e esquisitóide (no mau sentido) que dá um tom tão feioso, tão inútil e tão pouco "ilustrativo" ao clipe que, quando o troço termina, o espectador acha que acabou de participar de um daqueles testes de memória que tem labirintos e umas figuras geométricas em cores primárias, que fazem nossos olhinhos girarem como se fossemos personagens birutas de desenhos animados.
E o mais estranho nisso tudo não é o que eu disse, e sim o fato que de que a direção ficou a cargo de... W.I.Z.! Sim, do bonitaço "My Star", do Ian Brown. Mas acho que ele só manda bem mesmo é em P&B, e isso se exemplifica com o perigoso "Club Foot", do Kasabian e com sua obra-prima máxima, o extraordinário "Stand Inside Your Love", que nem preciso dizer de quem é.

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