terça-feira, 28 de julho de 2020

O PORTA-MÚSICA DO ALFA 11 - rockbrasilia.com.br ago-08

Se a proposta é fazer um som facilmente digerível, extremamente acessível, bem tocado e U!L!T!R!A!P!O!P!, então BINGO! Pois sim, a música do Alfa 11 não preza muito pela originalidade ou pelos experimentalismos (aquela não muito incômoda sensação [calma, você se acostuma... acontece naturalmente] de que já ouvi isso antes), até porque essa não é a intenção do grupo, mas sim ser rica em autenticidade. Reverbera pelas entranhas uma espécie de consciência século XXI, e tal e coisa, e é aí que eles aparecem e a luz se faz. Normal, mas é isso aí. Poderia ser algo como "Ei, você, eu não sei bem, não entendo o porquê, mas gosto disso". Como dito, é algo que acontece.
Mas que diabos eu quero dizer com toda essa embromação? Ora, isto:
Não há uma mistura de eletronizações com um pop rock mais convencional. O que se ouve é uma separação desses dois gêneros, mas uma separação que traz à tona duas bandas diferentes (exceto em uma de suas primeiras canções, “Estranhos Desejos”, em que quase todas as suas referências se encontram), o que é muito mais vantajoso para os fãs. É algo como se a Síndrome de Primal Scream tivesse se incrustado nos meninos do Alfa 11, como se eles mudassem a cada disco – se bem que o que ocorre aqui é uma mudança a cada faixa, não a cada disco, mas sempre com o cuidado de pisar em terreno conhecido. Por isso não erram.
Não erram na produção do disco “Fênix” (2004), por exemplo, o segundo da banda, e que é excelente, tudo no lugar, com muito destaque para os vocais. Ah, já ia me esquecendo de frisar, mas não pude me esquecer: a voz de Alexey Rickmann é parecida (beeemmm parecida) com a de Dinho Ouro Preto (vocalíder do... vocês sabem), se bem que isso ele deve ouvir sempre. Além do mais, isso não tem assim muita importância (nenhuma), até porque (ufa), ao cantar, Rickmann não se utiliza dos mesmos trejeitos irritativos do tal líder do Capital Inicial. E, melhor: transmite certa personalidade, difícil de definir, mas que exemplifica bem o próprio nome da banda, que alude à robustez do tal porta-aviões da Marinha.
Voltando ao disco, a parte instrumental está perfeita, tudo excelentemente bem-feito. Alguns (chatos, chatos, chatos) poderiam resmungar que isso é péssimo, pois não parece “humano” não errar, e que blablablá... Mas a Gizinha aqui diz o oposto. Incluir nas gravações erros e ruídos que não deveriam estar ali, nos anos 70, até chegou a ser algo in, mas já passou. E passou há muito, e o pessoal do Alfa 11 sabe disso, e preferiu seguir o caminho que eles mesmos escolheram, não ficar perambulando por vales de trevas ou de experimentos descabidos só por um senso de obrigação de ousar.
Se bem que, não se pode classificar de outra coisa a não ser ousada a faixa-remix “Arquivo X” (que não é fenixista, mas que deveria ser), que começa sombria, tal como um episódio da mais fantástica série do universo. Absolutamente eletrônica, parecida com tudo, diferente de tudo. Ondas sonoras marcantes do electro-rock, e você nota que é aí que entram as influências de Depeche Mode e de New Order. Uma introdução longa que nos faz pensar que se trata de uma faixa instrumental, mas aí entra a letra. Mais Arquivo X impossível. Define muitíssimo bem a relação “chove-não-molha” que viviam os protagonistas Fox Mulder e Dana Scully (pena que Carter tenha jogado tudo isso ralo abaixo graças à sua péssima direção nesse novo filme... sniff...). Ainda bem que o Alfa 11 não fez o mesmo, e por tudo isso essa é, certamente, a faixa que mais chama a atenção, giselisticamente recomendada.
Outra faixa que segue no mesmo embalo é a grudenta “I Just Get Drunk When I Drink”, um dueto pra lá de dançante, superatrativo, sensacional, quase totalmente eletrônica e que meus dotes videntescos avisam que ela será atual mesmo daqui a uns mil anos.
Ah, a questão da autenticidade. Não há no som do Alfa 11 nada que remeta diretamente a outras músicas. Vê-se que houve uma preocupação de fazer tudo sui generis, o que é sempre um alívio para quem ouve. Os violõezinhos (sempre encantadores) de “Virando a Página” (e sua letra tão triste quanto deve ser) e também os da bela “Infinito”, demonstram mesmo que estavam levando a sério essa coisa de não se mirar em um só estilo.
Outra música que demonstra a potência do Alfa é a guitarrística “Cinza como o céu”, que poderia constar nalgum disco do próprio Capital Inicial (que serve de referência à banda), pois todos os elementos estão ali, com a diferença de que o Alfa tem algo a mais que o CI não tem, que é a tal da autenticidade, numa rara demonstração da máxima de que o aluno deve sempre superar seu mestre. Por essas e outras músicas, só resta esperar que esse Alfa não se torne Ômega tão cedo.

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